Presidente afirma que enviará nova carta a Donald Trump, acusa americanos de agirem com base em “inverdades” e critica brasileiros que, segundo ele, estimulam o embate comercial
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira 3 que o Brasil não pode concordar com a forma como foi tratado pelos Estados Unidos nos últimos dias. Durante a abertura de uma reunião ministerial, ele voltou a criticar a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
Lula disse que pretende intensificar a reação diplomática do governo brasileiro. Segundo ele, enviará uma nova carta ao presidente americano, Donald Trump, e voltará a publicar artigos em veículos de comunicação dos Estados Unidos e de outros países para defender a posição do Brasil.
“Eu ainda vou mandar outra carta ao presidente Trump, vou escrever quantos artigos forem necessários escrever na imprensa americana e na imprensa mundial, para mostrar que eles estão errados, equivocados, e que estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária”, declarou.
O presidente voltou a contestar o principal argumento utilizado pelos americanos para justificar a medida. Segundo Lula, embora Washington alegue haver déficit comercial na relação bilateral, os Estados Unidos acumularam superávit nas trocas comerciais com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos.
Ele também afirmou que o governo brasileiro nunca se recusou a dialogar com os norte-americanos e criticou a forma como tomou conhecimento da decisão.
“Ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos. Eu fiquei sabendo da taxação pelo Twitter. Uma taxação consubstanciada com base em inverdades”, afirmou.
Durante o discurso, Lula direcionou críticas ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Segundo o presidente, o chefe da diplomacia americana mantém uma postura desfavorável em relação à América Latina e ao Brasil.
“Não gosta da América Latina nem do Brasil. É um latino americano frustrado”, disse aos ministros.
O presidente também voltou a associar a crise comercial a disputas políticas internas. Sem citar nomes, repetiu críticas que já havia feito anteriormente e afirmou que alguns brasileiros estariam incentivando o embate com os Estados Unidos na expectativa de obter ganhos eleitorais.
“Confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem e antes de ontem com a decisão deles. E mais ainda, o que é triste, é que tem brasileiros que não vou citar nomes aqui, fomentando essa briga na perspectiva de que se ele taxar a gente ele vai prejudicar uma candidatura a presidente da República, e um imbecil desse não percebe que quem é prejudicado é o povo, não é o Lula”, declarou.
Na sequência, Lula pediu que seus ministros reforcem publicamente esse discurso.
“Vocês, ministros, não podem deixar de dizer isso em alto e bom som: ‘estão tentando trair o Brasil com interesses mesquinhos, rasteiros, de uma disputa eleitoral’. Não há disputa eleitoral, em qualquer país do mundo, que possa dar valor a alguém que trai a pátria”, afirmou, em referência a integrantes da família Bolsonaro, embora sem mencioná-los diretamente.
O presidente também indicou que o governo buscará ampliar mercados para os produtos brasileiros caso novas barreiras comerciais sejam impostas pelos Estados Unidos. Segundo ele, o País não ficará dependente do mercado americano.
“Não vamos ficar chorando, vamos procurar outros parceiros. Se eles não querem comprar, nós vamos vender para quem quiser comprar, a gente não vai ficar reclamando”, disse.
Lula ainda mencionou as reservas brasileiras de minerais críticos, consideradas estratégicas para diversos setores industriais e tecnológicas. Segundo ele, eventuais iniciativas de exploração desses recursos por empresas estrangeiras devem passar necessariamente pelo diálogo com o governo brasileiro.
por O Correio de Hoje

