Um descompasso na saúde que pode ter consequências graves: as arritmias cardíacas, que são um desequilíbrio do coração, afetam cerca de 20 milhões de brasileiros e causam, anualmente, 320 mil mortes súbitas, segundo dados da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac). A doença pode atingir uma em cada quatro pessoas ao longo da vida. Há arritmias benignas e malignas, e eventualmente podem se apresentar de forma silenciosa. A manutenção de hábitos que levam ao bem-estar do coração e os exames para diagnóstico precoce são essenciais para evitar problemas maiores no futuro.
A arritmia cardíaca consiste em qualquer alteração na frequência habitual dos batimentos cardíacos, o chamado ritmo sinusal. O distúrbio pode elevar (taquiarritmia) ou reduzir (bradiarritmia) a frequência cardíaca. Segundo Antonio Amorim de Araújo Filho, cardiologista especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), sensação da arritmia é muito variada de pessoa para pessoa.
“Existem pessoas que conseguem ter a percepção do mínimo de irregularidade do batimento cardíaco, porém, outras podem ter arritmias frequentes e não sentir nada. Esse é o grande perigo”, avisa. O médico ressalta a importância de saber reconhecer os sintomas que podem ter relação com as arritmias. Entre os sinais que podem prenunciar a presença da condição estão a fadiga, dificuldade em respirar, dores no peito, suor frio, e a queda na pressão que pode levar a tontura, enjoo, vertigem ou desmaios.
O cardiologista enfatiza o sintoma de “batedeira no peito”, uma sensação de batida irregular no peito, aceleramento dos batimentos cardíacos mesmo em repouso. “Palpar o pulso e perceber irregularidade nos batimentos e até mesmo quadro de tonturas e desmaio. São sinais de alerta que devem fazer o paciente procurar uma consulta com o cardiologista para investigação”, diz.
Fatores internos e externos podem levar à arritmia. O principal fator desencadeante são doenças cardíacas (cardiopatias) que comprometem sua estrutura morfológica, como infarto e hipertrofia do músculo cardíaco (secundária a hipertensão arterial, por exemplo), que pode levar a crescimento e subsequente dilatação do órgão.
Antonio Amorim ressalta que há determinados grupos e ocasiões de risco. “A idade é um fator de risco importante para algumas arritmias, como a fibrilação atrial. Quanto mais idoso, aumenta a prevalência”, diz. Também há doenças que contribuem para o surgimento de arritmias, como outros distúrbios cardiovasculares como hipertensão arterial, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, e ainda diabetes. Indivíduos que passam por estresse e tensão emocional exacerbadas, ou que fumam e consomem álcool excessivamente, também se encontram em maior vulnerabilidade.
O tipo de arritmia conhecido como fibrilação atrial atinge cerca de dois milhões de brasileiros, e é mais recorrente em idosos. O cardiologista explica que ela é originada na parte superior do coração (átrio esquerdo) onde o paciente apresenta um ritmo cardíaco totalmente irregular. “Essa arritmia favorece a formação de coágulos no coração e esses coágulos podem sair do coração e ir para o cérebro, causando o tão temido AVC”, completa.
O diagnóstico, segundo Antonio Amorim, é feito através de exames cardiológicos, começando pelo mais básico que é o eletrocardiograma, e passando por exames que monitorizam o ritmo cardíaco por mais tempo, como o holter de 24 horas, holter de sete dias e até mesmo um dispositivo implantável que pode ficar mais de um ano fazendo essa monitorização (looper implantável).
“Hoje temos facilidade com relação a tecnologia, que através de relógios como o ‘smartwatch’, pode ser feito um registro do ritmo cardíaco e ajudar também no diagnóstico”, diz. O cardiologista, no entanto, ainda faz uma ressalva ao eletrocardiograma, que a depender da situação, pode não ser suficiente.
O eletrocardiograma é uma foto do momento. “Se naquele momento o paciente não está sentindo nada, o eletro pode ser normal. O ideal é tentar flagrar a arritmia no período da monitorização, por isso a necessidade de exames que façam o registro com mais tempo, como o holter”, explica.
O diagnóstico precoce é importante, ressalta o médico, porque pode detectar arritmias graves que oferecem risco de morte súbita e, consequentemente, já iniciar um tratamento para ela. “No caso, por exemplo, da fibrilação atrial, esse diagnóstico precoce pode já indicar a necessidade do uso de anticoagulantes para prevenir e evitar um possível AVC”, completa.
Amorim Araújo ressalta mais uma vez os benefícios dos avanços tecnológicos para o diagnóstico e tratamento das arritmias. “Hoje temos milhares de pessoas no planeta com dispositivos que podem registrar arritmias, ampliando a chance de diagnóstico. Isso se tornará cada vez mais comum”, acredita.
Para os tratamentos, há um arsenal terapêutico que consiste em fármacos, estimulação cardíaca (como marcapasso), ablação (consiste em uma cateterização do músculo cardíaco e cauterização do foco de arritmia) e cardioversão química ou elétrica (para reversão imediata em quadros agudos). Há também remédios anticoagulantes, já que algumas arritmias predispõem a formação de coágulos intracardíacos.
Entre as medidas que podem contribuir para impedir a manifestação da arritmia ou também a controlar a condição após o diagnóstico, estão cuidados bastante efetivos. Entre eles, a adoção de bons hábitos, com alimentação balanceada, rica em frutas, verduras, legumes e cereais; evitar tabagismo, bebidas alcoólicas e energéticos, controlar diabetes e a hipertensão, e praticar exercícios físicos.
Para pacientes com arritmia, a prática de exercícios físicos deve ser dosada de acordo com a gravidade do quadro e a disposição do indivíduo. Antes de iniciar a prática, é importante passar por avaliação cardiológica. É preciso consultar um cardiologista para avaliar qual esporte seria o mais adequado, levando em conta o tipo de arritmia e outros fatores físicos. Muito importante também tratar e controlar doenças preexisfentes como hipertensão e diabetes.
ARRITMIA CARDÍACA
- As arritmias cardíacas são alterações que ocorrem no ritmo dos batimentos cardíacos e podem acometer 1 em cada 4 pessoas ao longo da vida;
- A arritmia cardíaca causa 320 mil mortes súbitas por ano no Brasil;
- Grupos de risco: idosos, pessoas com histórico de infarto, hipertireoidismo grave ou anemia, hipertensos, pacientes com doenças que acometem as válvulas cardíacas, e obesos;
- Há dois tipos de arritmia: taquicardia, quando o coração bate muito rápido, ou bradicardia, quando as batidas são muito lentas e descompassadas;
- Sinais de alerta: palpitações, desmaio, tontura, confusão mental;
- Fatores de risco: predisposição genética e estilo de vida (má alimentação, tabagismo, bebidas alcoólicas em excesso, sedentarismo e picos de estresse);
- Tratamentos: fármacos, estimulação cardíaca (como marcapasso), ablação (cateterização do músculo cardíaco e cauterização do foco de arritmia) e cardioversão química ou elétrica (para reversão imediata em quadros agudos)
Por Tribuna do Norte/Reporter Tádzio França


